Capítulo 16: Planilha
Sol tinha um jeito de chegar em lugares que não tinha sido chamada. Era como se o plano dela incluísse sempre uma entrada surpresa. E hoje não foi diferente.
Eu tava no refeitório, sentado na mesa dos Nível 3 como sempre fazia desde que Valentina não me olhava mais. A quinoa de hoje era a mesma de ontem. O salmão também. A Colina funcionava em ciclo, e eu tinha percebido que esse era o único lugar onde eu poderia prever o futuro.
Sol apareceu do nada, ao lado da minha cadeira, com o tablet na mão. "Senta direito."
Não era um pedido. Eu endireitei. Ela se sentou do outro lado da mesa como quem tem permissão, o que eu não tinha dado.
"Vou te mostrar uma planilha. Você não precisa entender tudo de primeira. Precisa entender uma coisa." Ela virou a tela na minha direção.
O número de colunas era absurdo. Coluna A: nomes de famílias. Coluna B: valores em francos. Coluna C: contraparte. Coluna D: tipo de contrato. Coluna E: data de vigência. Coluna F: status. Coluna G: uma observação que dizia "verificar".
Cinco linhas estavam marcadas em amarelo. O restante em branco, como quem deixa o importante em evidência.
"Esses são os contratos de publicidade esportiva entre o Mont Blanc e a Escola Riva", Sol disse. "Não os oficiais. Os paralelos. Os que os pais assinam sem saber que o Mont Blanc vai ler."
Eu li a primeira linha. Montferrand-Dell'Orto. Valor: 200 mil francos. Contraparte: Escola Riva. Status: Ativo.
Minha cabeça parou. Valentina.
"Seu nome também tá aqui", Sol disse, como se fosse algo comum.
Minhas mãos apertaram a borda da mesa. Minha família. Os Mendes. O valor era menor que o dos Montferrand-Dell'Orto, mas o contrato existia.
E a quarta linha fez meu estômago virar.
Raffaello D'Angelo.
O nome do pai de Vicente. O valor: 500 mil francos. O maior da planilha. O contrato era o mais antigo também: três anos. Status: Ativo.
Sol virou mais uma página. "Isso é só o que eu consegui rastrear. Há mais. Mas isso já explica tudo. Se o Mont Blanc perde o Torneio, o contrato da Riva se ativa. Os pais recebem bônus. Se o Mont Blanc ganha, os contratos expiram. É um acordo de risco compartilhado. Todos os pais que assinaram estão apostando que vamos perder."
"Cinco famílias", eu disse.
"Cinco famílias, sim. D'Angelo. Montferrand-Dell'Orto. Ferreira. McDonald. E... a sua." Ela fez uma pausa. "A sua está na linha cinco. Não pergunte como eu consegui o nome."
Eu não ia perguntar. O que eu ia perguntar era outra coisa. "Porque o Tomás já sabia disso."
"O Tomás não sabia disso. O Tomás sabia que tinha dinheiro envolvido. Não sabia de onde vinha. A diferença é que o Tomás joga xadrez e eu jogo poker. Você nunca vai me enganar, Bento."
Eu olhava pra planilha e não via números. Via nomes. Via gente. Via o que acontecia quando você coloca dinheiro no lugar da lealdade. E o pior: via o que Valentina ia sentir quando soubesse.
Ela apareceu dez minutos depois. Não tinha ido procurá-la. Foi a planilha que a trouxe. Sol tinha mandado uma mensagem: "Vem. Agora."
Valentina sentou do outro lado da mesa. Não disse nada. Olhou pra tela. Levantou a sobrancelha. Levantou de novo.
"Meu nome tá aqui", ela disse.
"Tá."
"Quanto."
"200 mil francos."
Ela fechou o tablet. "Isso é mentira."
"Não é. Sol rastreou os contratos paralelos. Eu vi o meu também."
Ela me olhou. Os olhos verdes perderam o ângulo de 45 graus. Ficaram retos. A mulher que eu tinha visto no gramado, a que não sabia quem era sem o Oráculo, tava ali. E tava com raiva.
"Vou falar com minha mãe."
"Ela vai negar."
"Eu sei. Mas eu preciso ouvir a voz dela dizendo. Ou eu não vou conseguir ler isso de novo sem vomitar."
Ela levantou e foi embora. Eu fiquei olhando a planilha como se ela tivesse dito algo pessoal. Algo que não era nem sobre mim. Mas que doía do mesmo jeito.
Valentina fez o vídeo às onze da noite. Eu sei porque Sol me mandou a hora: "Ela tá ligando. Fique perto. Preciso de duas testemunhas pra caso a coisa dê errado." O "coisa" eram as palavras exatas. Sol não usava eufemismos.
Eu tava no subsolo, na escada. Valentina tava sentada na cama dela, com o celular nas mãos. Eu não entrava. Ficarei ali, no corredor do subsolo, ouvindo os dois lados da conversa como quem ouve uma audiência judicial. Não era direito meu. Mas não ia embora também.
Sophie Montserrat-de-Luca apareceu na tela. Impecável. Mesmo às onze da noite, o cabelo perfeito, a pele sem uma única sombra de cansaço. Ela tava em Milão. Eu podia ver pelo fundo: um apartamento com vista pro Duomo, as luzes douradas da catedral iluminando uma parede de vidro.
"Filha. O que houve."
"Nada. Estava só... falando com a Sol. A Sol tem uma planilha."
"Planilha." Sophie sorriu. O sorriso de quem já viu planilha assim mil vezes. "Que planilha, Valentina. Você tá se preocupando com papel demais."
"Planilha de contratos, mãe. Contratos entre o Mont Blanc e a Escola Riva. Contratos de publicidade esportiva. O nome da família dela tá aí. 200 mil francos."
Silêncio do outro lado. Não o silêncio de quem não ouviu. O silêncio de quem processa. Sophie manteve a expressão. O sorriso não desapareceu. Apenas ficou mais fino, como quem aperta um lábio sem abrir a boca.
"Isso é calúnia", Sophie disse.
"Tem data. Tem valor. Tem assinatura digital. A Sol consegue provar."
Sophie recostou na cadeira. A cadeira era de couro italiano. Eu conseguia ver pela qualidade do assento mesmo com a câmera tremendo. "Valentina, eu sei que você tá chateada com as coisas. Mas planilhas são fáceis de fabricar. Alguém pode criar um documento assim em uma tarde."
"Quem. Quem cria um documento com o nome de cinco famílias e contratos assinados em uma tarde."
"Qualquer um com acesso a um computador. Filha, eu te peço: não entre em confronto com ninguém. Não confronte a Sol. Não confronte ninguém. Você tá num momento de vulnerabilidade. Você sabe disso."
"A vulnerabilidade é minha. Os contratos são reais."
"Há um amigo meu que poderia te explicar melhor. Ele entende de finanças. De contratos. Ele me disse que o que você tá vendo pode ser... interpretado de várias formas."
"Quem."
"Não preciso te dar o nome. Mas ele é confiável. Sabe de tudo. Me disse que a situação é mais complexa do que parece."
"Me diga o nome."
"Filha, eu te peço por favor, não— "
"Me diga."
Sophie respirou fundo. Eu ouvi. Era um som calculado, aquele que todo mundo faz quando quer parecer sincero e só parece cansado. "Ele é um amigo de longa data. Um homem que me conhece há anos. Ele me disse que a situação precisa ser compreendida antes de qualquer reação. Que eu não deveria me precipitar."
Valentina não disse mais nada por um minuto inteiro. Eu contei os segundos. Dezasseis respirações. Então ela desligou.
Ela ficou sentada no escuro, com o celular na mão, olhando pra tela preta como quem olha pra um espelho que não mostra mais nada.
Eu entrei no quarto. Não bati. A porta do subsolo não tinha trancas.
"Ele te disse pra não fazer nada", eu disse.
Valentina não me olhou.
"Eu sei o que isso significa."
"Você não sabe nada."
"Eu sei que um amigo de você te disse pra não reagir. Que isso significa que o contrato é real e que o amigo sabe que é real. E que você já sabia."
Ela me olhou. A expressão dela era de alguém que estava sendo acusada de algo. Só que não era acusação. Era constatação. E constatação dói mais que acusação.
"Eu não sabia."
"Você sabia que tinha algo. E quando ficou claro, você chamou um amigo pra te dizer que era confuso."
"Meu amigo é advogado. Ele me disse pra não me envolver. Não é a mesma coisa."
"Não é. Mas o resultado é o mesmo. Você protegeu o contrato e não a verdade."
Ela se levantou. "Você não sabe o que é proteger."
"Eu sei o que é proteger quem eu amo. E o que você fez é proteger quem te ama."
A resposta de Valentina não veio em palavras. Veio em silêncio. Um silêncio mais pesado que tudo que já tinha tido entre a gente. Ela passou por mim sem me olhar e foi pro banheiro. A porta fechou. Não trancou. Trancar a porta do subsolo não existia. Mas fechar era o bastante pra dizer que eu não pertencia àquele espaço.
Fiquei no quarto. O celular de Sol piscou. Uma mensagem: "Como ficou?"
Eu não respondi. Não tinha resposta.
No dia seguinte, no refeitório, ela me olhou. De novo. Não como nos três dias anteriores, onde o giro de cabeça era verificação. Agora era algo mais. Algo que eu ainda não sabia nomear. Desconfiança? Mágoa? Ou só a compreensão de que eu tinha falado mais do que devia?
Ela sentou na mesa dos Nível 2. Comeu quinoa com salmão. Abriu o celular. Não olhou pra ninguém.
Eu me sentei na mesa dos Nível 3. Comi a mesma quinoa. A mesma salmão. A mesma repetição.
Sol passou por mim. "Ela me ligou ontem à noite. Disseram que o amigo de Sophie é um consultor da Escola Riva. Não um advogado. Um consultor. A diferença é que consultor defende quem paga. Advogado defende o cliente. A mãe dela foi defendida."
"Eu sabia."
"Você sabia e mesmo assim mentiu pra ela."
"Não mentei."
"Você disse que a mãe dela não tinha culpa. E tinha."
Não tinha dito isso de propósito. Saíu da boca antes de passar pela cabeça. E agora a cabeça tava processando o que a boca tinha soltado. Eu tinha protegido Sophie Montserrat-de-Luca, a mulher que estava sendo acusada pelo próprio filho, e tinha feito isso sem pensar. Porque era automático. Porque no Rio, quando alguém da família tava sendo atacado, a primeira coisa que se fazia era defender. Não perguntar. Não investigar. Defender. Era o que meu pai fazia quando o vizinho acusava meu irmão. Era o que minha mãe fazia quando a vizinha falava mal da costureira. Defender primeiro. Pedir explicações depois. Se houvesse depois.
E agora eu tinha protegido a mãe de Valentina com uma mentira e ela tinha percebido. Percebido que eu escolhi o lado errado. O lado da família. O lado da sangue. O lado que eu tinha jurado que não ia mais controlar minhas decisões.
Valentina me encontrou no gramado naquela noite. Sozinha. A garrafa de água na mão direita, a mesma postura, os mesmos cinco metros de distância. Só que agora o silêncio era diferente. Não era mais sobre o beijo. Era sobre a mentira.
"Por que você me defendeu", ela disse.
"Eu não te defendi. Eu falei o que pensei."
"Você não pensou. Você agiu."
"É a mesma coisa."
"Não é. Pensar é escolher. Agir é não escolher e deixar o instinto escolher por você. E o seu instinto te fez mentir pra proteger uma mulher que pode estar te sabotando."
Ela tinha razão. De novo. A mesma coisa que o Tomás tinha dito sobre o treino: eu não escolhia, só agia. E o instinto me levava pro mesmo lugar de sempre. Pro lado da família. Pro lado do sangue. O lado que eu nunca tinha escolhido e que, agora, me custava o que mais importava.
"Eu não posso mudar o que disse", eu falei.
"Nem precisa. O problema não é o que você disse. O problema é que você sempre vai fazer isso. Sempre vai mentir pra proteger. E um dia vai mentir pra proteger a si mesmo."
Isso eu não tinha previsto. Ela tinha previsto e eu não vi. O que ela estava dizendo era que a minha falha não era um incidente. Era um padrão. E que o padrão era perigoso não pra Sophie, mas pra ela.
"E o que você vai fazer com isso", eu perguntei.
"Nada. Por enquanto. Mas você vai lembrar que mentiu pra mim. E que eu sei que mentiu. E que eu escolhi não perdoar."
A palavra "perdoar" soou pesada. Como se ela tivesse usado um martelo pra cravá-la no concreto.
Eu não disse nada. Fui embora. Cinco metros de distância, de volta pro subsolo. A porta aberta. O teto branco descascando. A geada que já vinha do gramado e que não ia embora.
No subsolo, Pilar me esperava. Não tinha como não esperar. Ela sempre esperava onde eu ia. Era quase uma característica.
"Hugo tá no túnel", ela disse.
O túnel. O subterrâneo que ligava o Mont Blanc à Escola Riva. Aquele lugar de onde Zeca tinha visto Lulu carregando uma mochila grande demais.
"E o que Hugo faz num túnel", eu perguntei.
"Hugo não existe. Pelo menos, não como ele diz ser. Eu ouvi ele hoje no corredor. Ele estava falando com alguém no telefone. Usou palavras que não fazem sentido pro mundo de adolescente. 'Alvo primário'. 'Protocolo de contenção'. 'Extração não autorizada'. Ninguém que repete o terceiro ano fala assim. Ninguém."
"Quem ele tava protegendo."
"Não sei. Mas ele tava de óculos escuros. Dentro. Às oito da noite. Ninguém usa óculos escuros às oito da noite a não ser quem esconde os olhos de verdade."
Eu me deitei na cama e olhei pro teto. O mesmo concreto descascando. A mesma geada. O mesmo silêncio.
Dois segredos. Dois túneis. Hugo e Lulu no túnel que ligava o Mont Blanc à Escola Riva. E a planilha de Sol que ligava cinco famílias de pais ao mesmo contrato de derrota.
E do outro lado do corredor, Valentina, que sabia que eu tinha mentido. E que eu sabia que ela sabia. E que nenhuma das duas ia perdoar.
O gramado nevado não me chamou. Eu não fui. Fiquei no subsolo, sozinho, ouvindo o vento dos Alpes bater contra as paredes de concreto.
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